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REFLEXÕES SOBRE DIAS PERFEITOS (WENDERS, WIM. 2023)

Recentemente, assisti ao filme Dias Perfeitos, do diretor alemão Wim Wenders. O longa foi indicado ao Oscar em 2024, o que impulsionou sua popularidade e garantiu destaque nas mídias. Esse feito é especialmente significativo por se tratar de uma produção estrangeira realizada no Japão. É até curioso: filmes estrangeiros não ganham tanta visibilidade, pensando, é claro, em filmes fora do eixo americano. O filme nos revela aspectos do cotidiano tradicional, antigo e contemporâneo. Aos poucos, ele mostra sua singularidade ao apresentar a rotina de Hirayama — um homem que, em meio à modernidade, vive de forma simples e tranquila. A obra traz diversas críticas à sociedade atual e também nos mostra a beleza do simples.

A história é contada do ponto de vista de Hirayama, um senhor de meia-idade que trabalha na limpeza de banheiros em Tóquio. Inicialmente, o filme parece pacato e entediante, exigindo certo esforço para continuar assistindo — mas esse é justamente o ponto: explorar o tédio como parte da narrativa.

O filme me trouxe uma perspectiva de vida interessante, e mais interessante ainda seria explorar suas diversas facetas. Somos apresentados aos sons do cotidiano, quando não há fala de outros personagens: o bocejo, o barulho do regador, a música tocando dentro do carro – e engana-se quem pensa ser o Spotify ou outro aplicativo. No contemporâneo, a pressa e o caos são símbolos de viver e de ter uma vida. É curioso o silêncio tão barulhento que se faz nos primeiros 20 minutos do longa. Há algumas aparições importantes que nos revelam um pouco mais sobre esse mundo, como a chegada de sua sobrinha. Somente nesse ponto o escutamos mais, vivenciamos e adentramos o universo silencioso e nada digital.

Diversas perguntas surgem ao longo do filme, e a maioria delas se resume a uma só:

Estamos vivendo na pressa porque o mundo nos obriga a isso, ou porque acreditamos que esse é o normal?

Para nós, da geração Z, talvez pareça comum. Somos a geração da tecnologia, e é inevitável não vivenciar esse cenário, já que ele nos acompanha desde o início do “novo século”. Essa dúvida surgiu logo nas primeiras cenas, enquanto Hirayama trabalhava e seu colega dividia a atenção entre o celular e a limpeza.

Perguntei-me se essa não é a visão que as pessoas mais velhas têm da nossa geração — e talvez seja; não tenho dúvidas disso. Com certeza muitos já ouviram de seus avós ou parentes mais velhos que somos muito conectados, que vivemos presos às telas, que não conhecemos mais ninguém pessoalmente e que não temos mais conexões reais. E, por mais custoso que pareça admitir, é real.

Apesar disso, não podemos simplesmente afirmar que a tecnologia é ruim. Pelo contrário, ela também nos abre portas para enxergar o passado, oferecendo uma nova dimensão para compreender o mundo daqueles que vieram antes dela. Essa obra, por exemplo, nos convida a refletir sobre a verdadeira conexão humana – ou sobre o “desconectar” tecnológico dela.

E se tivéssemos a oportunidade de retornar aos hábitos dos nossos avós? Viver sem pressa, acordar com o nosso relógio biológico, observar mais o dia e a natureza que tanto nos rodeia. Posso dizer que somos a geração do comodismo: estamos acostumados com tudo, ao mesmo tempo, em todo lugar e a cada segundo.