O JORNALISMO NA ERA DOS ALGORITMOS
Com a atenção se tornando um privilégio e os feeds ditando o ritmo do consumo, os jornalistas tentam reaprender a conversar com seu público. Os jornalistas equilibram a profundidade e o alcance em um cenário cercado de distrações. Os algoritmos, construídos primariamente para o benefício das Big Techs, manipulam o comportamento e a atenção dos leitores, muitas vezes preterindo conteúdos mais longos ou aprofundados. Cada vez mais as empresas jornalísticas são forçadas a se curvarem aos novos modelos de audiência, gerando conflitos com seus princípios fundamentais. Na guerra por atenção, as redes sociais são as principais arenas de disputa simbólica e informacional. Algoritmos, influenciadores e veículos de mídia competem pelo tempo, pelo olhar do público e principalmente pelos cliques. Nesse ecossistema fragmentado das redes, novas receitas são geradas para sustentar o atual modelo jornalístico mantendo a qualidade e ética, adaptando-se às dinâmicas da Internet.
A crise da atenção vem sendo debatida há anos em diferentes áreas de estudo. E se relaciona diretamente à sobrecarga de informações e estímulos, que leva à fragmentação do foco e à dificuldade de concentração prolongada, afetando a cognição e o bem-estar mental. A rolagem rápida do feed, os vídeos de 15 segundos no Reels, YouTube Shorts, TikTok e o bombardeio de mensagens “push” nos celulares acionam alertas para estudiosos e médicos, já que provocam a liberação de dopamina nos centros de recompensa, semelhante à liberada pelo uso de substâncias. A população jovem e urbana é perfeita para a armadilha do consumo rápido e constante, sendo o principal alvo da indústria tecnológica.
A inteligência artificial também é a principal problemática dessa geração e cada vez mais está inserida em diversas plataformas, mesmo quando não é percebida. De modo geral, é comum que as pessoas utilizem recursos de IA sem se dar conta disso. Um exemplo evidente é a presença do Gemini no buscador do Google, ao pesquisar sobre determinado assunto, a primeira resposta exibida é gerada pelo modelo, que mescla informações relevantes de outros sites, sem verificar a veracidade das informações do site ou a confiabilidade do conteúdo ali publicado. Na maioria das vezes, esse detalhe passa despercebido. Vivemos com os olhos imersos em uma correnteza constante de conteúdos, filtrados conforme nossos interesses, que são identificados por meio de curtidas, tempo de permanência na tela, compartilhamentos e comentários. A inteligência artificial assume hoje um duplo papel na comunicação digital, onde ela produz e recomenda conteúdo. Na produção, modelos generativos criam textos, imagens, roteiros e até vídeos, acelerando processos antes, exclusivamente humanos. É comum ver pessoas acreditando em vídeos gerados por IA, que vão desde animais engraçados diante das câmeras até figuras públicas em situações que nunca aconteceram. O alerta é acionado nesse momento, quando não há nenhuma proibição nas plataformas de propagação desses conteúdos, quando não há nenhuma opção obrigatória de informar que o vídeo viral foi 100% produzido por IA. Dia após dia, um novo vídeo viral surge, com o intuito ou não de gerar desinformação. Ultrapassamos a barreira de vídeos inocentes e dos animais fofinhos para entretenimento e estamos embarcados para a Era ainda mais grave da propagação da desinformação. A cada dia torna-se mais difícil reconhecer o que é ou não real. A utilização da ferramenta IA para prejudicar pessoas, alastrar mentiras e gerar caos está inserida de forma irreversível. Nas recomendações, algoritmos analisam comportamentos, padrões de navegação e engajamento para decidir o que cada usuário verá primeiro. Sendo assim, a IA funciona tanto como “mão invisível” da produção quanto como “porteira” da circulação. Onde ela determina, com base em dados, o que ganha visibilidade e o que queremos consumir.
Como o jornalismo depende cada vez mais da monetização digital, conteúdos socialmente necessários perdem espaço para materiais virais, criando um conflito entre profundidade e viralização. Matérias longas e críticas são deixadas de lado por formatos curtos e polêmicos. Para sobreviver, redações passam a adaptar rotinas, títulos e pautas aos critérios de engajamento, num processo de “plataformização do jornalismo”. Segundo a jornalista e professora da PUC-Rio, Luciana Brafman, “A curadoria humana é necessária e urgente. A curadoria algorítmica até pelo modo em que ela é construída, direciona valores que não são valores jornalísticos. O volume e a agilidade dos algoritmos já ocupam a sociedade moderna, e isso alimenta o argumento de que o ser humano não daria conta da curadoria, seja por seus próprios vieses e valores, e que o algoritmo seria, em tese, mais neutro. Mas essa ideia é uma falácia: não existe algoritmo neutro.”. Quando o lucro se torna o principal filtro, a informação mais correta nem sempre é a que ganha visibilidade. A falta de transparência dos algoritmos enfraquece a hierarquia jornalística baseada no interesse público, substituindo-a por uma lógica de atenção.
Bráulio Lorentz, jornalista do G1 da editoria Art&Pop, considera que o jornalista continua exercendo um papel central na curadoria, mesmo em um cenário dominado por excesso de conteúdos e recomendações algorítmicas. Ele afirma que a função de selecionar e orientar não desapareceu, apenas mudou de natureza. Antes, a curadoria tinha relação direta com o investimento financeiro do público, escolher qual CD comprar, qual show assistir, qual filme ver no cinema. Hoje, com o streaming, a curadoria está ligada principalmente ao uso do tempo, que se tornou o recurso mais escasso. Assim, o jornalista atua como alguém que analisa o que já está sendo discutido, observa tendências, organiza conversas e orienta o público sobre onde vale a pena dedicar atenção, funcionando como filtro crítico em meio ao volume massivo de lançamentos. A disputa pela atenção sempre existiu, mas agora, ela é maior do que nunca, e justamente por essa razão que a curadoria jornalística permanece fundamental.
NOVOS CAMINHOS NO JORNALISMO
À medida que grandes veículos encolhem suas redações, priorizando muitas vezes conteúdos mais rápidos e “vendáveis”, a crítica perde espaço dentro das estruturas tradicionais da mídia. Esse movimento não nasce apenas de decisões editoriais, mas da própria lógica das plataformas digitais, que redirecionam audiência para o que gera engajamento imediato, deixando textos longos e interpretativos em desvantagem no jogo algorítmico. Muitos críticos e jornalistas têm encontrado novos caminhos fora das grandes redações. Em vez de desaparecer, a crítica tem se deslocado: migra para newsletters independentes, canais no YouTube, perfis no Instagram, podcasts no Spotify, comunidades fechadas e projetos de financiamento coletivo. São espaços nos quais o jornalista recupera a autonomia sobre o formato, o ritmo e o olhar, algo que, nos veículos tradicionais, foi sendo perdido devido à pressão de audiência e pela padronização editorial. Esses novos modelos de linguagem criam ambientes onde é possível aprofundar análises, experimentar novas linguagens e explorar nichos que a mídia tradicional já não acolhe. Ao mesmo tempo, eles revelam um público que continua interessado em reflexão, contexto e interpretação mas disposto a encontrá-los em outros lugares. O crescimento desses projetos mostra que o cenário está mudando e ganhando novos espaços. Nessa transição do tradicional para o alternativo, o jornalista recupera a voz autoral, a liberdade de abordagem, a resistência e a possibilidade de construir comunidades em torno de um olhar próprio.
A (RE)CONQUISTA DA ATENÇÃO
No centro de todas essas transformações, informar um público constantemente disputado por algoritmos, notificações e fluxos infinitos de conteúdo é o grande desafio para os comunicadores. A solução é apostar em formatos mais humanos, em narrativas que criem vínculo e em curadorias que façam sentido, devolvendo ao público a sensação de que vale a pena dedicar tempo a algo que oferece contexto, profundidade e cuidado. Em um ambiente saturado, a atenção se torna um gesto de confiança, e o jornalista que consegue conquistá-la é o que encontra caminhos para sobreviver e permanecer relevante.
A tese de Luís Gustavo de Oliveira Rodrigues, pesquisador do Instituto Behring de Inteligência Artificial da PUC- Rio, partiu do seu incômodo pessoal após quase vinte anos trabalhando com dados e produtos digitais. Ele percebeu que os próprios sistemas que ajudavam a criar, estavam influenciando comportamentos e emoções de usuários em momentos de vulnerabilidade. Para Rodrigues, os produtos digitais já não entregam verdades universais, mas sim relevâncias pessoais, calibradas para soar familiares, desejáveis e emocionalmente confortáveis. É a partir dessa tensão que Rodrigues descreve a ascensão da “Era da desconfiança”, marcada por dependência digital, conexões digitais e erosão da vida comum. Ele observa que tudo, nas redes, está sendo otimizado para capturar o nosso tempo, criando rotinas de consumo automático e levando até adultos a desenvolver hábitos digitais que encurtam a atenção, ainda que de forma suave. “Invista a sua atenção. Quem consegue fazer esse movimento conscientemente, cada vez mais tem um capital inigualável.”, aconselha Rodrigues. A saída é recuperar práticas que devolvam a autonomia, treinando a atenção profunda, estabelecendo limites conscientes e fortalecendo vínculos fora das telas. “Quem consegue investir na própria atenção ganha um diferencial para a vida.”. Cultivando presença e conexões reais, criando hábitos de pausa e reconstruindo espaços de convivência offline é a melhor estratégia para recuperar a autonomia.
Postar um comentário