← Voltar Publicado em

Mais diagnósticos ou mais informação? O TDAH na geração Z

Nos últimos anos, o aumento nos diagnósticos de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) na geração Z reacenderam o debate sobre saúde mental, hiperconectividade e os limites entre uma melhor identificação do transtorno e sua banalização nas redes sociais. Segundo o dicionário Merriam-Webster, a geração Z compreende os nascidos entre 1997 e 2012, marcados pelo avanço da tecnologia.

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por sintomas persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade que comprometem os estudos, o trabalho e as relações sociais. O diagnóstico é clínico, realizado por uma equipe multiprofissional com base no histórico do paciente, na observação dos sintomas e em critérios estabelecidos pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). O transtorno pode se manifestar nos subtipos desatento, hiperativo/impulsivo ou combinado.

Apesar do aumento dos diagnósticos nos últimos anos, especialistas alertam que isso não significa necessariamente uma maior incidência do transtorno. A psicopedagoga e neuropsicóloga, Glória Avancini, explica que o aumento nos diagnósticos de TDAH e ansiedade não necessariamente significa uma explosão de novos casos, mas sim uma melhora significativa na conscientização e identificação dessas condições. "Hoje em dia se fala muito mais sobre saúde mental. Essa identificação nos dá a impressão de que existem mais transtornos, mas é por conta da própria disseminação do tema", pontua.

A psicóloga também ressalta que o uso de psicoestimulantes não deve ser visto apenas como uma forma de “acalmar” o paciente, mas como um recurso essencial para o reequilíbrio químico do cérebro. Segundo Glória, os psicoestimulantes regulam neurotransmissores como dopamina e noradrenalina, essenciais para funções como atenção, planejamento e controle dos impulsos. "O medicamento psicoestimulante age na dopamina e noradrenalina, que estão ligadas à motivação, recompensa e estado de alerta. Isso é importante para funções como planejamento e controle de impulsos", destaca.

Infância, vida adulta e os desafios do diagnóstico

Na infância, é comum que o transtorno provoque dificuldades acadêmicas, desafios comportamentais e problemas de relacionamento com colegas e professores. Já na vida adulta, um dos principais desafios é diferenciar seus sintomas de outros transtornos, como ansiedade, depressão, além de condições clínicas, como disfunções da tireoide.

A principal diferença entre o cérebro infantil e o adulto está no desenvolvimento do córtex pré-frontal, região responsável pelas funções executivas, como atenção, planejamento, organização, controle dos impulsos e regulação emocional. Essa área é a última a amadurecer e, em geral, completa seu desenvolvimento por volta dos 25 anos, embora algumas pesquisas indiquem que esse processo possa se estender até os 30.

Ana Mendes, graduanda em Psicologia pela PUC-Rio e atuante na área de Neuropsicologia, onde realiza avaliações neuropsicológicas em crianças e adolescentes, observa que os sintomas do TDAH costumam se manifestar de forma diferente na vida adulta. A hiperatividade, comum na infância, tende a se tornar menos evidente, em parte pelas convenções sociais e pelo amadurecimento. O adulto se torna inquieto, que se movimenta constantemente ou tem dificuldade para ficar sentado por muito tempo. “Muitas vezes pela maturidade cerebral e também pelo fato daquela pessoa ter experiência de vida, ela desenvolve estratégias para que esses sintomas não apareçam tanto. Mas não se engane, não aparecer tanto não significa que eles não estejam causando dano para vida do indivíduo”, acrescenta.

Diagnosticado com TDAH ainda na infância, Rafael Amaral, de 20 anos, conta que os primeiros sinais surgiram ainda durante a alfabetização. Nos primeiros anos escolares, professores perceberam comportamentos considerados atípicos para sua idade, como movimentos repetitivos, dificuldade para socializar com crianças da mesma faixa etária e problemas de atenção. Segundo ele, era comum passar longos períodos olhando para o teto e divagando durante as aulas. "Quando eu voltava a prestar atenção, já não conseguia acompanhar o conteúdo da aula", relembra Rafael.

Diagnosticado aos 27 anos, em maio de 2025, Antônio Carlos Gouvêa relata que sentiu alívio ao receber o diagnóstico e pode compreender melhor sua condição, mas também sentiu certa frustração ao perceber que muitas das dificuldades enfrentadas na infância e na adolescência estavam relacionadas ao TDAH. Antônio conta que com o acompanhamento profissional e a medicação melhoraram significativamente sua qualidade de vida e o controle dos sintomas. “É como se minha cabeça fosse um navegador com 50 abas abertas. O remédio fecha essas abas e me permite focar em uma coisa só. Desde que voltei à faculdade, meu rendimento melhorou muito em relação aos outros anos da minha vida”, comenta.

Além dos aspectos clínicos e das diferentes formas de manifestação do TDAH ao longo da vida, o ambiente digital também influencia a forma como o transtorno é percebido e compreendido pela sociedade. Com o crescimento das redes sociais, o acesso à informação se ampliou, mas também aumentaram os casos de desinformação, autodiagnóstico e banalização da condição.

Os efeitos da hiperconectividade, autodiagnóstico e desinformação

Em seu livro “A Geração Ansiosa”, o psicólogo americano Jonathan Haidt correlaciona a popularização dos smartphones e redes sociais com a piora expressiva da saúde mental dos jovens em diversos países. O excesso de telas pode prejudicar a memória, criatividade, capacidade de resolução de problemas e o desenvolvimento da linguagem, além de afetar o sono, a atenção e aumentar os níveis de ansiedade.

As redes sociais exercem um papel ambivalente na saúde mental dos jovens. Ao mesmo tempo em que ajudam a reduzir o estigma e permitem o compartilhamento de experiências e a formação de comunidades de apoio, também podem favorecer a desinformação. A simplificação de transtornos por influenciadores e a adoção de rótulos como "neurodivergente" como identidade podem gerar senso de pertencimento, mas também banalizar e distorcer a compreensão sobre essas condições.

Para o diagnóstico de TDAH em crianças, adolescentes ou adultos, especialistas explicam que é necessária a presença de múltiplos sintomas por mais de seis meses, com início antes dos 12 anos. O principal critério, porém, é que esses sintomas provoquem prejuízos significativos e estejam presentes em pelo menos dois contextos da vida, como escola, casa ou trabalho.

Identificar-se com alguns critérios do TDAH não significa, necessariamente, ter o transtorno. Comportamentos como esquecer onde deixou objetos podem ocorrer na população em geral, Em contrapartida, pessoas com TDAH tendem a vivenciar esses episódios com maior frequência e intensidade.

Diagnosticado aos 22 anos, em 2019, Caio Meira afirma que, na época, o transtorno ainda era menos compreendido e tratado com mais desconfiança do que atualmente. “O diagnóstico trouxe um alívio, porque teve a questão da terapia. Mas ao mesmo tempo, é um pouco chato, porque ninguém leva muito a sério essa questão, porque ficou muito banalizado. Hoje a pessoa sente uma preguicinha e fala ‘ah, eu tenho tdah’, então é um pouco chato”, relata.

Para Rafael, a popularização de autodiagnósticos e o uso indiscriminado do termo nas redes sociais acabam distorcendo a compreensão sobre o TDAH. “As pessoas acabam não menosprezando, mas ridicularizando e minimizando os sintomas. Você não tem TDAH por só ter falta de atenção, ser uma pessoa distraída ou desastrosa. Vai muito além disso”, afirma.

O tratamento do TDAH envolve uma abordagem multidisciplinar, com psicoterapia, acompanhamento especializado e, quando necessário, o uso de medicamentos. Embora o aumento dos diagnósticos reflita avanços na identificação do transtorno, o desafio agora é ampliar o acesso ao diagnóstico correto e combater a desinformação que circula nas redes sociais.



Edit this block to edit the article content or add new blocks...