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LAMPIÃO DA ESQUINA: PERSEGUIÇÃO E RESISTÊNCIA, UM GRITO LGBTQIA+ EM PLENA DITADURA

Contexto histórico dos jornais independentes durante o período militar 

Esses jornais surgiram como contraponto à mídia corporativa, que frequentemente servia — e ainda serve — a interesses econômicos e políticos. Tinham como foco os movimentos sociais, causas locais, denúncias e temas sub-representados. Muitas vezes apresentavam limitações técnicas e recursos escassos, justamente pela falta de verbas e patrocinadores, mas compensaram com autenticidade, engajamento e pluralidade de vozes. Veículos alternativos como O Pasquim, Opinião e Lampião da Esquina foram criados para driblar a censura e dar espaço à crítica ao regime, funcionando como formas de resistência e inovação jornalística. O Lampião da Esquina, em particular, destacou-se por dar voz à comunidade LGBTQIA+, sendo um símbolo de coragem e enfrentamento político em um período de repressão. Fundado em 1978, abordava abertamente temas ligados à sexualidade — especialmente a homossexualidade — num momento em que esse debate era praticamente inexistente na mídia tradicional. O jornal não apenas desafiava o autoritarismo político, mas também os preconceitos sociais, promovendo um discurso crítico e provocativo. Durante a ditadura militar brasileira (1964–1985), o controle rígido da informação por meio da censura levou ao surgimento de veículos alternativos e independentes de comunicação, como resposta à manipulação midiática por parte da grande imprensa, frequentemente alinhada ao regime. Esses jornais independentes marcaram um período de resistência cultural e política, contribuindo para a formação de uma imprensa mais plural e democrática. Mesmo sob risco de perseguição, seus jornalistas, artistas e colaboradores atuavam com coragem e ousadia, abrindo caminho para a liberdade de expressão no país.

Durante o regime militar, os militares acreditavam estar conduzindo uma “revolução” que colocaria o Brasil no caminho do desenvolvimento e da competitividade internacional. Para consolidar esse projeto, implementaram uma política de controle social baseada no conservadorismo e na obediência política. Como tinham dificuldades de se comunicar diretamente com a população, passaram a usar estratégias de propaganda e comunicação de massa para moldar a opinião pública. Lucas Borges de Carvalho, na Revista da Faculdade de Direito UFPR, destaca a base jurídica usada pelo regime para silenciar a imprensa: “a censura à imprensa (…) baseou‑se em uma legalidade ambígua, marcada por práticas institucionais não oficializadas e sigilosas e por uma ausência de formalização expressa dos órgãos competentes para sua implementação”

Ele também ressalta como a escalada autoritária foi legitimada pelo Supremo Tribunal Federal após o AI‑5: “foi chancelada por decisões judiciais, em particular do Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a impossibilidade de contestação às proibições da censura (…) acobertadas pelas normas do Ato Institucional nº 5” 

  • Censura prévia (1970): Com o Decreto-Lei nº 1.077, além da implementação do AI‑5 em 1968, o governo impôs censura prévia. Censores acompanhavam redações e determinavam quais matérias poderiam ser publicadas — jornais alternativos eram obrigados a enviar textos a Brasília para aprovação
  • Temas proibidos: O regime vetava sistematicamente reportagens sobre violência estatal, direitos humanos, críticas ao governo, temas tabus como sexualidade e desigualdades sociais.
  • Resistência organizada: Em 1977, a ABI reuniu quase 3.000 assinaturas num manifesto condenado a censura oficial e exigindo respeito à liberdade de imprensa — um símbolo do embate entre setor autoritário do Estado e forças civis-democráticas  
“O presidente Garrastazu Médici baixou o Decreto-Lei nº 1.077, que regulamenta a censura prévia a livros e periódicos. A partir daí, censores se instalaram nas redações de jornais e revistas. A eles caberia decidir o que poderia ou não ser publicado. A imprensa nanica ou alternativa, por sua vez, passou a ser obrigada a enviar os textos que pretendia publicar para a Divisão de Censura do Departamento de Polícia Federal, em Brasília. A censura atingiu a imprensa de forma diferenciada. Jornais de grande circulação, como "O Estado de S.Paulo", "Última Hora" e "Correio da Manhã", foram cerceados na capacidade de informar. Periódicos da imprensa alternativa, como "Opinião", "Movimento" e "O Pasquim", foram estrangulados pela obrigação de levar textos e imagens até Brasília, prejudicando os prazos de edição.”
Trecho sobre o regime militar no site “Memórias da Ditadura”.

A censura à imprensa manifesta-se de duas formas: a censura institucionalizada — oficial — e a autocensura, que os próprios veículos de comunicação adotavam por medo de represálias. No entanto, apenas alguns jornais diários, como Tribuna da Imprensa, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e Jornal do Brasil, foram submetidos à censura prévia direta. Já nas revistas e nos semanários, a repressão foi ainda mais severa. Inicialmente, os militares controlavam o conteúdo por meio de ligações telefônicas ou bilhetes enviados às redações, com ordens claras sobre o que deveria ser censurado. Posteriormente, essa tarefa passou a ser executada diretamente pela Polícia Federal. Em 26 de janeiro de 1970, o Decreto-lei nº 1.077 alterou a Constituição de 1967, incluindo a censura prévia como mecanismo constitucional, proibindo a divulgação de conteúdos considerados ofensivos à moral, aos bons costumes ou ameaçadores à segurança nacional. Como resultado, diversas edições de jornais e revistas foram confiscadas, e muitos jornalistas e donos de veículos de imprensa foram presos.

Paulo Sérgio Pinheiro (cientista político):

"A censura foi um dos principais instrumentos da ditadura para controlar a sociedade e suprimir qualquer forma de dissidência ou crítica. Era uma política sistemática, não um recurso pontual."
(Entrevista à Folha de S.Paulo, 2014)

Maria Aparecida de Aquino (historiadora, USP):

"A censura não se limitava a apagar palavras ou proibir músicas; ela mutilava o pensamento, calava as vozes e moldava uma narrativa oficial."
(Revista Brasileira de História, 2003)

A imprensa alternativa como espaço de voz e denúncia

Durante a ditadura no Brasil, diferentes jornais alternativos surgiram com o propósito de furar o bloqueio informativo. Cada um com seu estilo e foco, mas todos com a intenção de dar visibilidade ao que os grandes veículos deixavam de lado. Usando o humor, a análise política ou a cobertura de movimentos sociais, essas publicações ocuparam um espaço importante de comunicação e resistência.

O Pasquim: Fundado em 1969 por nomes como Ziraldo, Millôr Fernandes e Henfil, tornou-se símbolo da resistência cultural com seu humor ácido e provocador. Usava a ironia como ferramenta para escapar da censura e atingir um público amplo e fiel.

Movimento: Lançado em 1975, tinha uma redação democrática e foco em temas como greves operárias, repressão e violações de direitos. Produzia reportagens densas e se firmou como um dos jornais alternativos mais influentes da década.

Opinião: Criado em 1972 e dirigido por Raimundo Pereira, prezava pela independência editorial e assumia uma postura crítica diante da conjuntura política. Seu compromisso era com as liberdades democráticas, mantendo um teto de publicidade para garantir autonomia.

Versus, Coojornal, Em Tempo e Jornal da Cultura: Com diferentes enfoques — sindical, estudantil, feminista ou regional — essas publicações ampliaram o alcance da resistência informativa. Deram visibilidade a lutas sociais ignoradas pelos grandes veículos, colaborando para a construção de uma memória coletiva do período.

A importância desses veículos não estava apenas no conteúdo, mas no ato político de existir. Sem patrocinadores e sob vigilância constante, foram escolas de jornalismo engajado, atuando como ponte entre os setores organizados da sociedade e uma população privada de informação crítica. Foram fundamentais para dar visibilidade a greves de trabalhadores, mobilizações estudantis, ações de resistência, denúncias de tortura e à cultura marginal que resistia à repressão. Em textos, charges e reportagens, ajudaram a construir uma memória que segue essencial até hoje para entender o passado recente e defender a democracia. Em um período marcado pelo silenciamento, pela censura oficial e pela repressão violenta, os jornais alternativos atuaram como arquivos vivos da verdade. Eles registraram denúncias de tortura, violações de direitos humanos, greves, perseguições políticas e resistências culturais que a grande imprensa — muitas vezes alinhada ao regime — silenciava ou distorcia. Publicações alternativas deram visibilidade a vozes silenciadas: operários grevistas, estudantes perseguidos, mulheres, intelectuais, indígenas, militantes e artstas. Hoje, esse material constitui fonte primária indispensável para compreender o período.

O legado do Lampião da esquina

 Em agosto de 1977, o grupo Folha de São Paulo publicou uma nota chamando atenção para a chegada de Winston Leyland ao Brasil. A matéria convocava os homossexuais brasileiros para a chegada de Leyland ao Brasil, que nesse momento, passava por um processo gradual de liberalização política, enquanto homossexuais se manifestavam nas grandes cidades e surgiam em diversos veículos da imprensa. A chegada do escritor americano, considerado como uma das figuras seminais da publicação gay e diretor da revista Gay Sunshine, incentivou a vontade crescente e resguardada de ativistas e intelectuais a publicar e até criar um canal de informações voltado para o público LGBT. Com essa inspiração em terras brasileiras, o grupo de jornalistas homossexuais assumidos, organizou-se com Mascarenhas no intuito de entrevistar Leyland para uma matéria no Pasquim, dando o arranque necessário para a realização do projeto de uma publicação feita por homossexuais e grupos minoritários: O Lampião da esquina.

Grandes figuras paulistas e cariocas estavam a frente de um projeto que viria a ser o maior símbolo de resiliência homossexual do país. Pessoas de prestígio e conhecidas no universo intelectual faziam parte desse grupo. Do jornalismo a letras, da arte ao cinema, estavam os nomes: Adão Costa, Aguinaldo Silva, Antônio Chrysóstomo, Clóvis Marques, Francisco Bittencourt, Gasparino Damata e João Antônio Mascarenhas; o artista plástico Darcy Penteado; o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet; o escritor João Silvério Trevisan e o antropólogo Peter Fry. O grupo se ampliou com o apoio de simpatizantes e outros interessados, e para financiar o jornal que estava a nascer, o grupo fez uma arrecadação enviando cartas para 12 mil amigos e amigos dos amigos. Homossexuais e simpatizantes de todo o Brasil se uniram a uma causa global, a recepção e a arrecadação indulgente, deu início aos dois primeiros números do jornal em formato de tablóide com 20 páginas e uma tiragem mensal que oscilava entre 10 e 15 mil impressos.

Em abril de 1978, Lampião da Esquina fez a sua estreia no jornalismo alternativo, sendo pioneiro na abordagem do homossexualismo e sexualidade. A entrevista com o escritor britânico foi publicada apenas na edição número dois. A edição experimental feita em abril, contou com a edição experimental número zero, circulando mensalmente ininterruptamente até junho de 1981, tendo 37 edições em três anos de existência. O número zero estreou no jornal com um editorial chamativo e provocador, revelando uma proposta curiosa. Com o título “Saindo do Gueto”, o texto avaliava os limites e a liberdade no país, e com uma pergunta intrigante “mas um jornal homossexual, para quê?”, com uma pergunta central representando e criando dúvidas sobre o que era ser homossexual num país cercado de preconceito. Qual seria o sentido de uma publicação voltada ao público que ainda não construiu sua identidade pública? A resposta coletiva era clara, e mostrava a existência de uma única identidade que fora confinada nos guetos e estigmatizada pela associação com a criminalidade, corrupção moral e drogas.

“É preciso dizer não ao gueto e, em consequência, sair dele. O que nos interessa é destruir a imagem-padrão que se faz do homossexual, segundo a qual ele é um ser que vive nas sombras, que prefere a noite, que encara a sua preferência sexual corno uma espécie de maldição. (…) o que nós queremos é resgatar essa condição que todas as sociedades construídas em bases machistas lhes negou: o fato de que os homossexuais são seres humanos e que, portanto, têm todo o direito de lutar por sua plena realização. O Lampião reivindica em nome dessa minoria não apenas se assumir e ser aceito – o que nós queremos é resgatar essa condição que todas as sociedades construídas em bases machistas lhes negou: o fato de que os homossexuais são seres humanos e que, portanto, têm todo o direito de lutar por sua plena realização, enquanto tal”
Trecho da primeira edição do Lampião da esquina publicado.

O jornal usava do bom humor e sátiras para fazer críticas ao sistema repressivo, com um vocabulário de quem vivia a repressão na pele, utilizavam de palavras pejorativas como símbolos de resistência e congregação. A qualidade editorial, política e literária, viria a ser o motivo de sua fama, onde um jornal alternativo e independente se destacava por apresentar questões bem elaboradas e com teor intelectual. O veículo não só era feito por homossexuais, como também, se direcionava a eles. Como uma forma de encontro e perseverança durante a ditadura, onde a violência não parecia mais conter a liberdade sexual e moral, o lampião da esquina transformou a repressão em luta, amor e liberdade amar e a de viver democraticamente. Ser gay não era mais motivo de vergonha, e seus termos pejorativos já não traziam mais dor, eram a resistência. “E aí o delegado chegou e falou: ‘Como é que nós podemos chamar o senhor’ e eu disse: ‘pode me chamar de viado mesmo!’ estava ok. É viado, bicha, sapatão, lésbica, traveco, travesti. Não tem problema!” diz o co-fundador do lampião da esquina João Silvério Trevisan, em uma entrevista para a CartaCapital em 2016. O que era ofensivo, se tornou um segundo nome, os “gueis” se identificavam cada vez mais e ao mesmo tempo riam de si mesmos. As edições do jornal, eram colocadas na sessão pornográfica, no fundo das bancas de jornais, levando o leitor a “sair do armário”. Lampião utilizava da sua voz, um motivo para falar de questões ambientais, oposições ditatoriais, falavam do fervo e “tabus” sexuais. A luta contra a ditadura, questões de esquerda e a luta do proletariado eram marcantes na sua ascensão, mostrava a preocupação do jornal com a população em geral e aqueles que viviam as dores de uma sociedade nada justa, e além disso desafiava as autoridades e colocavam sempre a cara a tapa, com entrevista com ícones assumidos da época, faziam história ao demonstrar coragem contra os censuradores e apoiadores do regime. O “lampião” mapeava todos os territórios de encontros gays. Com cerca de 20 mil exemplares em circulação por mês, o Rio de Janeiro virava a sede de encontros para os LGBT. A cidade maravilhosa, abrigava e acolhia – embora houvesse muita repressão – diversas pessoas que se identificavam, as levavam para trechos na praia de Copacabana. Outras zonas de “pegação” LGBT eram identificadas nas redondezas da cidade amada.

“Toda censura é uma forma de violência.”

— Crítica ao aparato repressivo do regime, tanto político quanto moral.

“A luta é pelo direito de amar.”

— Frase usada em campanhas do jornal para defender a afetividade LGBTQIA+ como um direito humano básico.

“Bicha também é povo!”

— Provocadora, essa frase rompia com o vocabulário normativo da época e reivindicava cidadania para pessoas LGBTQIA+.

  • Editorias fixas como Cartas na Mesa, Esquina (notícias), Reportagem e, a partir do nº 5, a coluna “Bixórdia”
  • Abordava sexualidade livremente, mapeamento de territórios gays (“pegação”), violência policial, identidade trans, racismo, feminismo e pautas de povos originários
  • Misturava política, denúncia, humor, linguagens do pajubá e cultura LGBTQIA+ — incluindo entrevistas com Lula, Ney Matogrosso e Leci Brandão
  • Foi alvo de espionagem e monitoramento pelos órgãos de inteligência da ditadura (CIE, SNI, DOPS) desde o seu lançamento, considerados uma ameaça à “moral e aos bons costumes”.
  • Sofreu boicote institucional, com recomendação oficial proibindo divulgação de anúncios governamentais (“propaganda do homossexualismo”).
  • Houve tentativas de intimidação, com grupos paramilitares ameaçando bancas que vendessem o jornal.
  • Editores, especialmente João Silvério Trevisan, foram interrogados pela Polícia Federal — inclusive fotografados — e enfrentaram inquéritos por ferir “moral e bons costumes”.

Declínio do Lampião da esquina

Mesmo que houvesse o apoio de diversas pessoas, o processo litigioso e as perseguições obstinadas da ditadura dificultaram a manutenção das edições e a sua circulação. Os problemas do Lampião, estavam além da ditadura, envolvia o processo de busca de identidade, que após tanto esforço, levava os editores a manifestar suas dúvidas sobre o propósito inicial do jornal. Estavam inovando ao abordar as questões das minorias?

O arquivamento do inquérito contribuiu para a violência exorbitante que foi externalizada com ataques terroristas às bancas que comercializam os jornais alternativos. A violência generalizada e as crises de identidade se intensificaram, e paralelamente mais dúvidas e críticas do grupo LBGT ao jornal foram surgindo, onde os acusavam do distanciamento de lutas concretas e do ativismo gay. A comunidade LGBT na época expressa pelos grupos: Auê, Somos, Grupo Opção à Liberdade Sexual, Bando de Cá, Grupo Gay da Bahia e Grupo de Ação Lésbica Feminista, entregaram ao jornal um documento queixando-se do distanciamento e das mudanças editoriais que estavam ocorrendo com o jornal, pautavam ainda, a imparcialidade na disputa de concepções ativistas, onde o jornal deixou de ser unânime e passou a gerar dúvidas sobre a sua posição política e opções editoriais. O lampião foi acusado de apropriar-se do título “porta-voz do movimento homossexual” e de manter uma posição anárquica e anti-esquerda, no texto Teses para a libertação homossexual II escrito em setembro de 1980 pela Fração Homossexual Da Convergência Socialista. Em agosto de 1980, o jornal rebateu as críticas e os questionamentos da comunidade LGBT. O escritor e editor Aguinaldo Silva, publicou um texto intitulado como “Uma cachoeira de grupos gueis” que apresentava uma distância clara entre o movimento homossexual e afirmava que não era possível transformar o jornal exclusivamente para o ativismo gay, pois comprometeria o alcance e as vendas do jornal.

Os editores encurralaram-se entre os interesses do mercado e o ativismo gay,dessa forma o jornal não conseguia agradar nenhum dos dois públicos. Divididos pelo consumismo e o ativismo, Lampião não tinha lugar para sequer existir. De tantos motivos pelos quais o jornal se deteriorava, o Lampião era cada vez mais desgastado pelo atrito entre seus fundadores mais ativos e influentes. De um lado estava o carioca Aguinaldo Silva e o paulista Trevisan, disputando por suas ideologias e diferenças evidentes, que cada vez mais cresciam diante da crise que o jornal vivia. Nas reuniões de pauta, sempre havia discussões calorosas em torno dessa mesma questão: O jornal não poderia ser apenas ativista, pois o limitaria.

“Realmente, o Aguinaldo achava que o jornal não podia ser político partidário de qualquer natureza, tinha que ter um vínculo de discussões de assuntos de seriedade mas ele não queria nenhuma vinculação nem com o movimento gay, nem o movimento feminista e nem o movimento negro“ (Lampião da esquina. 2016. 56 min).

No mesmo documentário produzido por Lívia Perez e Noel Carvalho, Aguinaldo explicou o motivo dos seus interesses anárquicos: “Havia facções, haviam as lésbicas, haviam os gays vegetarianos. Eles queriam fazer ativismo político, que é uma coisa muito chata. O jornal era muito interessante por que era anárquico, ele era pra cima, ele era bem humorado, as pessoas liam aquilo com maior prazer e se você começa a fazer o ativismo vira-se ‘o nosso prazer é melhor’, o que ja começa a ser também uma forma de discriminação”. João Silvério Trevisan, por outro lado, manteve o seu perfil militante do movimento gay, e acusava Aguinaldo de se desviar do projeto original do Lampião. Outros da mesma equipe, afirmam que sim, havia um distanciamento que foi tomando forma pois um lado queria o jornal com o alto-astral e enquanto que outro gostaria de manter uma posição política. Trevisan afirmou ainda que a iniciativa do encerramento do jornal partiu dele, onde o mesmo veio ao Rio de Janeiro. Aguinaldo, no mesmo documentário, rebate a informação dizendo:
“Eu atribuo o fim do jornal ao meu cansaço. Quando eu saí do jornal, eu disse: a partir de hoje eu não edito mais, vocês escolham outra pessoa... e ninguém se apresentou para editar, o jornal acabou por isso” (Lampião da Esquina, 2016, min. 70)

“Por um lado existiam aqueles que queriam fazer a Sierra Maestra Gay, e uns que queriam fazer streaptiese com lantejoula.”
(Lampião da esquina. 2016. 57 min).

A diferença de interesse e abordagem do Lampião, foram diminuindo em relação a imprensa alternativa e a tradicional. De modo que, naquele tempo, a Folha de São Paulo começou a ter colunas feministas, ecologia e sobre o racismo. O papel que o Lampião havia sido cooptado pela imprensa tradicional. Com a crise econômica e inflacionária, que se instalava a partir do verão de 1980, com menos dinheiro e interesse, as vendas do jornal caíram, o que resultou ainda mais na exaustão do projeto. João Silvério Trevisan, afirmou em entrevistas: “O Lampião acabou quando ele ainda estava por cima, porque entendemos que não tínhamos mais como sustentá-lo. Não queríamos vê-lo se apagar lentamente.”

As imprensas nanicas, foram importantes tratando de temas que não eram comentados pela imprensa. Ao pautar uma informação sobre algum tema considerado Tabu, eles mudavam um pouco mais os meios de comunicação. A repressão da ditadura não os silenciou completamente, embora perseguissem e ameaçassem abertamente os jornalistas, o lampião se manteve resistente contra essa política, dando voz e razão para minorias. A violencia, a divergência de opiniões deram o fim para o jornal que deu um recomeço para o grupo lgbt, negros e mulheres. Em meio a tanta complexidade que houve no antes e no durante do surgimento do jornal, a censura não penetrou na vontade dos jornalistas que projetaram o lampião. Lampião foi a história, e a necessidade de um povo reprimido finalmente colocar a cara no mundo.

Na verdade, o preconceito não acontecia apenas com a imprensa, nem se concentrava num setor determinado. A sociedade respirava e praticava homofobia, como parte da própria cultura eivada de machismo e heterossexismo. O que se fazia contra a comunidade LGBT+, naqueles anos, era um massacre quotidiano, da direita à esquerda, indistintamente. Uns condenavam em nome da moral consagrada, outros condenavam em nome da revolução prometida. Não se colocava em discussão a possibilidade de reivindicamos direitos. Não havia direitos para desviadores da “ordem natural das coisas”. A diferença dentro do espectro político estava na intensidade do preconceito homofóbico. Era considerado tão natural condenar o “desvio sexual” que a própria homofobia internalizada se tornava onipresente. Não bastasse a repressão externa, uma das maiores dores dessa população sexualmente dissidente concentrava-se na culpa de ser. 

João Silvério Trevisan em entrevista para o Jornal Diadorim

Referências e fontes

SAMPAIO, Daniel. Lampião da Esquina: um ícone LGBTQIA+. Veja Rio, [08/11/2021]. Disponível em: https://vejario.abril.com.br/coluna/daniel-sampaio/lampiao-da-esquina-lgbtqia/ Acessado em: 26/06/2025.

Operamundi. O Lampião da Esquina: 47 anos de um marco do movimento LGBT no Brasil. [10/04/2025]. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/pensar-a-historia/o-lampiao-da-esquina-47-anos-de-um-marco-do-movimento-lgbt-no-brasil/ Acessado em: 26/06/2025.

Unicamp. Golpe de 60. [03/2024]. Disponível em: https://unicamp.br/golpe-60/ Acessado em: 26/06/2025.

Jornal da Unicamp. Pioneiro jornal iluminou debate sobre dissidência sexual e de gênero. Edição 702, [03/2024]. Disponível em: https://jornal.unicamp.br/edicao/702/pioneiro-jornal-iluminou-debate-sobre-dissidencia-sexual-e-de-genero/ Acessado em: 27/06/2025.

Grupo Dignidade. Jornal Lampião da Esquina (1978-1981). [17/08/2021]. Disponível em: https://cedoc.grupodignidade.org.br/jornal-lampiao-da-esquina-1978-1981/28-ed-jornal-lampiao-da-esquina-setembro-1980/ Acessado em: 27/06/2025.

Rede Justiça Criminal. Como Lampião da Esquina desafiou a repressão em plena ditadura militar. [29/06/2023]. Disponível em:https://redejusticacriminal.org/como-lampiao-da-esquina-desafiou-a-repressao-em-plena-ditadura-militar/ Acessado em: 27/06/2025.

“Lampião da Esquina”, o jornal gay que questionou a ditadura e a esquerda. CartaCapital, 12/09/2016. Disponível em: https://www.youtube.com/embed/QQS0pILFOfc?si=TwTWR2xXh3Hhv6PU Acessado em: 27/06/2025.

Os corpos são as obras - Jornal O Lampião da Esquina. Tropicuir - Memórias em rede (Universidade do estado do Rio de Janeiro - UERJ), Disponível em: https://www.tropicuir.org/lampiao-da-esquina Acessado em: 30/06/25.

Revista Focus - Fundação Perseu Abrantes, CSBH: jornal O Lampião da Esquina foi a primeira publicação LGBT do Brasil, 12/06/17. Disponível em:https://fpabramo.org.br/2017/06/12/csbh-o-lampiao-da-esquina-primeira-publicacao-lgbt-do-brasil Acessado em: 30/06/25.

‘Chega de gente falando em nosso nome e se apossando da nossa voz’, diz João Silvério Trevisan”. Diadorim, 11/01/2021 Disponível em; https://adiadorim.org/entrevistas/2021/01/chega-de-gente-falando-em-nosso-nome-e-se-apossando-da-nossa-voz-diz-joao-silverio-trevisan Acessado em: 30/06/25.