2ª EDIÇÃO DO EXPOLIVRO NA PUC-RIO DESTACA DIÁLOGO ENTRE LITERATURA, UNIVERSIDADE E MERCADO EDITORIAL
A 2ª edição do Expolivro da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) reuniu nomes consagrados da literatura brasileira, como Aline Bei, Thalita Rebouças e Miriam Leitão, em uma programação que aproximou escritores, leitores e o universo editorial. Aline Bei participou de uma masterclass sobre escritas performáticas e falou sobre os traumas em suas obras; Thalita Rebouças compartilhou sua trajetória e a relação com os jovens leitores em um bate-papo mediado por Valmir Moratelli; e Miriam Leitão conversou com o jornalista Guilherme Amado sobre sua carreira e a interseção entre jornalismo e literatura.
Obsessão e o feminino: Aline Bei transforma traumas em poesias literárias
A escritora paulista Aline Bei foi convidada a participar da masterclass sobre escritas performáticas e concedeu uma entrevista sobre sua carreira. Em conversa com Mariana Bispo, a autora comentou sobre os traumas em seus livros.
Aline Bei, que esteve presente recentemente no Rio de Janeiro para participar da Bienal do Livro, retornou agora ao campus da PUC-Rio, onde fez pós-graduação em escritas performáticas. Para Bei, a experiência como estudante revelou a importância de viver as experiências na universidade, estar presente no campus, conviver com os colegas, frequentar as bibliotecas e organizar eventos. Durante a entrevista, relembrou sua trajetória literária e refletiu sobre a relação entre público e obra em um encontro com leitores. A autora e atriz destacou como a experiência da atuação influencia sua visão sobre a literatura. A poetisa disse enxergar o livro como um “gesto de espera”, diferente do teatro, que só acontece diante do público; a literatura nasce na solidão do escritor. Enquanto está em estado de espera, a obra não se revela por inteiro. Ela acredita que a leitura é um ato profundo de criação e confessa que sempre desejou ter um público de leitores e leitoras.
Mariana Bispo a questionou sobre o último livro “Uma delicada coleção de ausências”, em que são abordadas as dificuldades de convivência e traumas que perpetuam ciclos de violência entre mulheres — uma violência silenciosa e poética. A primeira observação da autora é a centralidade das obsessões. Para ela, escrever nasce desse movimento interno, que em outros contextos poderia soar angustiante, mas que, na arte, ganha um novo sentido. A obsessão, com sua força cíclica, a empurra para dentro de suas próprias tramas. Quando se caminha em direção a algo sem nome, o texto ganha novas interpretações que se revelam diante do olhar do leitor.
Autora que atravessa gerações: Thalita Rebouças presente na 2ª edição do Expolivro
A escritora Thalita Rebouças participou do bate-papo com o público mediado pelo jornalista Valmir Moratelli. A autora contou sobre sua trajetória literária, a relação com os jovens leitores e a forma como temas ligados à saúde mental e à diversidade estão presentes em suas obras. Com 25 anos de atuação no mercado editorial, Thalita se consolidou como uma voz próxima do público adolescente e jovem adulto. No encontro, destacou como sua produção acompanha mudanças geracionais que reforçam o papel do Expolivro como um espaço que aproxima universidade, leitores e indústria do livro em debates sobre literatura e sociedade.
No auditório da PUC-Rio, durante o Expolivro, a escritora destacou a importância de discutir saúde mental e diversidade com adolescentes e jovens através da literatura. Com 25 anos de carreira, Thalita contou ao público como suas obras acompanham as transformações vividas pela juventude em temas como redes sociais, homofobia, automutilação e transtornos alimentares. Ela lembrou que, desde seus primeiros livros, já incorporava a linguagem digital por ter vivenciado o surgimento da internet. “Eu vi a internet engatinhar. Sempre foi natural falar disso porque fazia parte da minha geração”, disse. A autora reforçou que não trata as redes sociais como protagonistas em seus enredos, mas como elementos que potencializam conflitos já existentes na adolescência.
Entre os momentos mais marcantes da conversa, a autora revelou a verdadeira inspiração para Confissões de uma Garota Linda, Popular e Secretamente Infeliz: o encontro inesperado com uma jovem que sofria de bulimia. “Eu não consegui falar com ela, mas espero que esse livro tenha chegado nela, porque foi ela que me inspirou”, contou. A escritora também comentou o processo criativo de sua obra mais recente, Diário de uma Garota Esquisita, que vai ganhar adaptação internacional: “Esse livro nasceu do nada e acabou se tornando o mais importante da minha carreira. Ele será minha primeira série produzida em Hollywood, meu primeiro título publicado em inglês”, revelou. Para o público jovem presente no evento, Thalita deixou uma mensagem de encorajamento sobre os caminhos inesperados da vida. “Eu queria escrever para leitores da minha idade, mas quem me abraçou foram os adolescentes. Isso me ensinou a deixar a vida me levar. Hoje, aos 50 anos, estou começando de novo, e isso mostra que nunca é tarde para recomeçar.”
Entre o Jornalismo e a Literatura: Miriam Leitão reflete sobre sua trajetória
A jornalista e economista da Globo Miriam Leitão esteve no quarto dia de evento e conversou com o jornalista Guilherme Amado sobre sua trajetória profissional na literatura e como jornalista.
“Eu sou uma mulher confessadamente de dois amores. Eu amo o jornalismo, eu amo a literatura. Eu não acho que eu faço um para fazer o outro, quero seguir com os dois. E se eu não tivesse tido a coragem de publicar os meus livros, eu seria uma pessoa pela metade". Miriam publica livros há cerca de dez anos, tornando-se uma jornalista e escritora multifacetada. O jornalismo pavimentou sua trajetória levando-a para a literatura, onde se mescla entre dois mundos com muita familiaridade. Miriam também destacou a relação entre ficção e realidade, ressaltando que a realidade informa a ficção, reflexão que também esteve presente em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, quando foi empossada como a nova imortal da cadeira 7.
Nascida em Caratinga, município do estado de Minas Gerais, Miriam revela detalhes sobre sua vida familiar. Filha de um pastor presbiteriano e uma professora, Miriam e seus doze irmãos carregam com obstinação a ética familiar e a educação dada por seus pais. Desde muito novos, seus irmãos e irmãs foram educados em torno de livros. As mulheres da casa eram criadas para terem uma profissão antes de se casarem. O pai de Miriam, reverendo Uriel de Almeida Leitão, os incentivava para a educação e sonhos profissionais, ela revelou para os alunos o amor e orgulho de ser filha de uma história épica.
“As mulheres da minha geração, eram educadas a se preparar para casar e meu pai nos educava para termos uma profissão e dizia, quando eu era criança: ‘Você vai ser escritora’."
Entre os trabalhos que marcaram a trajetória da escritora, destaca-se o projeto realizado em colaboração com o fotógrafo Sebastião Salgado na Amazônia, que resultou no livro-reportagem “Amazônia na encruzilhada: O poder da destruição e o tempo das possibilidades”, um retrato dos desafios enfrentados no coração do Brasil. Enquanto era conduzida pelo rio até São João Caru, onde conversaria com os invasores das terras indígenas na Amazônia maranhense, Miriam refletiu emocionada sobre a natureza e os povos indígenas, entendendo a sua força e fragilidade ambígua: Eles são fortes. Se eles ficarem aqui, eles sobrevivem. Se me largarem aqui, eu morro. Então, eles são fortes, mas ao mesmo tempo, tão frágeis. Essa floresta é tão linda, e tão frágil também. Apaixonada pela Amazônia, afirmou buscar sempre compreender melhor a região e descreve a experiência como um mergulho em outro mundo, contando que para se conectar com a tribo Awá-Guajá precisou aprender novas formas de se comunicar. “A Amazônia me ensina toda vez que eu vou. Eu nunca saio da mesma forma que eu entrei”, refletiu Miriam diante do público.
A Expolivro 2025 contou com a participação de mais de 30 autores de diferentes editoras.
A segunda edição do Expolivro reuniu autores consagrados e novos talentos da literatura, além de jornalistas e acadêmicos, em cinco dias de palestras, entrevistas e exposições na PUC-Rio. A universidade também promoveu masterclasses, entrevistas e exposições. Ao longo dos cinco dias de evento, o público pôde acompanhar nomes de destaque que marcam o mundo literário.
Entre os temas discutidos na semana do evento, estavam a literatura infantil, o jornalismo em livro-reportagem, diversidade, memória histórica e os rumos do mercado editorial no Brasil. Também ganharam espaço reflexões sobre a crise ecológica, a diversidade e a inclusão no universo literário, além da valorização da memória histórica por meio da escrita.
A Expolivro reforçou o universo literário e editorial no ambiente universitário, conectando leitores, autores e mercado em diferentes frentes. Além de aproximar o público acadêmico do circuito editorial, o evento também se consolidou como um espaço de formação, troca de experiências e valorização da produção literária. A presença de grandes editoras e escritores ao lado de leitores ampliou o alcance da leitura e fortaleceu o papel da universidade como ponto de encontro cultural.
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